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Ciência, Cuidado & Saúde
Print version ISSN 1677-3861
Ciênc. cuid. saúde vol.12 n.3 Jul./Sep. 2013
ARTIGOS ORIGINAIS
Extensão universitária em saúde mental na Universidade Federal do Paraná: contribuições à formação do enfermeiro
Extensión universitaria en salud mental en la Universidad Federal del Paraná: contribuciones a la formación del enfermero
Bárbara Simone da Silva MaurerI; Tatiana BrusamarelloII; Andréa Noeremberg GuimarãesIII; Vânia Carvalho de OliveiraIV; Marcio Roberto PaesV; Mariluci Alves MaftumVI
IAcadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bolsista do Projeto de Extensão "O Cuidado à saúde de pessoas com sofrimento mental e familiares". Membro do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Cuidado Humano em Enfermagem (NEPECHE). E-mail: br.simone@gmail.com
IIEnfermeira. Doutoranda de Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PGENF/UFPR). Membro do NEPECHE. Membro do Projeto de Extensão. E-mail: tatiana_brusamarello@yahoo.com.br
IIIEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Membro do NEPECHE. E-mail:deia@ufpr.br
IVEnfermeira. Mestranda do PPGENF/UFPR. Membro do NEPECHE. E-mail: vannypp@hotmail.com
VEnfermeiro do Hospital de Clínicas/UFPR. Doutor em Enfermagem. Membro do NEPECHE. E-mail: marropa@ufpr.br
VIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente Adjunto da UFPR. Coordenadora do PPGENF-UFPR. Vice-Líder do NEPECHE. E-mail: maftum@ufpr.br
RESUMO
O objetivo deste estudo foi descrever a contribuição da Extensão Universitária em Saúde Mental desenvolvida na Universidade Federal do Paraná para a formação do enfermeiro. Trata-se de pesquisa qualitativa do tipo exploratório-descritiva, desenvolvida em Curitiba Estado do Paraná. Fizeram parte do estudo 16 enfermeiros, os quais foram recrutados pela técnica da bola de neve. Os dados foram coletados mediante entrevista semiestruturada e categorizados pela análise temática. As categorias que emergiram dos dados foram: Cuidado em saúde mental fora do ambiente hospitalar; Interação e comunicação como estratégias de cuidado de enfermagem; Mudança no modo de perceber e compreender a pessoa com transtorno mental; Contribuição na formação profissional e pessoal do enfermeiro. Concluiu-se que, para os enfermeiros, a extensão universitária contribui para a sua formação acadêmica e na construção do saber para a prática profissional na área da saúde mental. Tal contribuição se deu no aprendizado do acolhimento, cuidado e apoio a pacientes e familiares e no reconhecimento de possibilidades para o enfermeiro atuar como partícipe da rede de apoio social na atenção à saúde mental.
Palavras-chave: Saúde Mental; Enfermagem; Ensino; Prática Profissional.
RESUMEN
El objetivo de este estudio fue describir la contribución de la Extensión Universitaria en Salud Mental desarrollada en la Universidad Federal de Paraná para la formación del enfermero. Se trata de una investigación cualitativa del tipo exploratorio-descriptiva, desarrollada en Curitiba-Paraná. Hicieron parte de este estudio 16 enfermeros, los cuales fueron reclutados por la técnica de bola de nieve. Los datos fueron recogidos a través de entrevista semiestructurada y clasificados por el análisis temático. Las categorías que surgieron de los datos fueron: Atención en salud mental fuera del ámbito hospitalario; Interacción y comunicación como estrategias de atención de enfermería; Cambio en la forma de percibir y comprender a la persona con trastorno mental; y Contribución en la formación profesional y personal del enfermero. Se concluyó que, para los enfermeros, la extensión universitaria contribuye para su formación académica y en la construcción del conocimiento para la práctica profesional en el área de la salud mental. Tal contribución se realizó en el aprendizaje del acogimiento, atención y apoyo a pacientes y familiares y en el reconocimiento de posibilidades para el enfermero actuar como un participante de la red de apoyo social en el cuidado a la salud mental.
Palabras clave: Salud Mental. Enfermería. Enseñanza. Práctica Profesional.
INTRODUÇÃO
A Extensão Universitária (EU) se caracteriza pela realização de ação processual e contínua de caráter educativo, social, cultural, científico ou tecnológico, com objetivo específico que deve prover impacto e transformação, interação dialógica, interdisciplinaridade e a indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão, com ações sistematizadas. Portanto, contribui para a construção do conhecimento, numa formação profissional cidadã, por legitimar a promoção da superação das desigualdades sociais existentes (1).
Aos estudantes, a EU possibilita o envolvimento em estratégias de ensino, atividades e práticas formativas com diferentes itinerários, confluindo para uma aprendizagem significativa a partir da sua realidade e de acordo com suas necessidades (1).
As estratégias de ensino e pesquisa, aliadas à Extensão Universitária, influenciam positivamente no processo de ensino-aprendizagem e na formação profissional, já que o caráter essencial da extensão de ocorrer junto à comunidade oferece ao estudante oportunidade de desenvolvimento de crítica e reflexão acerca da realidade social (1,2). Para este estudo, a contribuição na formação de enfermagem se deu na vivência que envolveu a complexidade do processo saúde-doença mental junto a pessoas com transtornos mentais e suas famílias.
No paradigma psicossocial, é importante que se estabeleça a parceria entre família e sociedade na promoção da saúde, na recuperação e ressocialização da pessoa com transtorno mental e nos cuidados dentro do contexto social e familiar do indivíduo doente. Assim, busca-se tornar a família informada, orientada e incluída no plano terapêutico, para que atue como agente coterapêutico e, deste modo, contribua para mais possibilidades de alívio do sofrimento mental (3).
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, deve-se assegurar a articulação entre o ensino, pesquisa e extensão/assistência, garantindo um ensino crítico, reflexivo e criativo, estimular a socialização do conhecimento produzido, bem como buscar desenvolver no estudante as atitudes e os valores orientados para a cidadania e para a solidariedade (4).
Nesse sentido, relato da experiência entre estudantes e equipe de enfermagem do Núcleo de Estudos sobre o Álcool e outras Drogas, da Universidade Federal do Espírito Santo, corrobora com o apresentado, no qual, através da Extensão Universitária, criou-se um espaço para desenvolvimento do ensino e da prática relacionadas às substâncias psicoativas. A experiência resultou em acréscimo de conhecimento a docentes e discentes sobre a temática, bem como possibilitou ao estudante aprender por meio do fazer, estimulando-o a desenvolver "atitudes construtivas, para o enfrentamento da problemática das substâncias psicoativas no plano pessoal (como cidadãos), profissional (como estudantes e educadores) e coletivo (como comunidade universitária)" (5:11).
Nessa perspectiva, a EU é elemento que contribui na construção do saber prático sustentado pelo conhecimento científico, por facultar ao estudante o desenvolvimento de habilidades e competências inerentes à formação de um profissional qualificado e compromissado com a sua prática. Trata-se de um processo educativo que, além de articular ensino e pesquisa de forma indissociável, tem por finalidade, fundamental, aproximar a universidade da sociedade. Ela deverá estar vinculada à geração de conhecimento e formação de profissionais, tendo o discente como protagonista de seu desenvolvimento técnico-científico, com vistas à obtenção de competências necessárias à sua atuação profissional e formação cidadã. Dessa forma, possibilita aos estudantes desenvolver um olhar diferenciado e estabelecer novas relações com o contexto social em que os indivíduos estão inseridos (1,2).
Partindo destas premissas, foi criado o Projeto de Extensão denominado "O cuidado à saúde de familiares e portadores de sofrimento mental", através de parceria entre Universidade Federal do Paraná (UFPR), representada por uma docente de enfermagem, e Associação de Apoio aos Portadores de Distúrbio de Ordem Mental (AADOM). As atividades deste projeto de extensão são desenvolvidas nas dependências do Setor de Ciências da Saúde da UFPR desde julho de 2005. Entre as principais atividades desenvolvidas, destacam-se as reuniões em forma de roda de conversa, com participação de pessoas com transtorno mental, familiares, estudantes da graduação em enfermagem e, eventualmente, de outros cursos, profissionais de saúde e de outras áreas, além de pessoas da comunidade.
O foco maior deste projeto de extensão é propiciar o exercício da cidadania a pessoas com transtorno mental e seus familiares, mediante integração com profissionais e estudantes da área da saúde. Aos estudantes de enfermagem serve como cenário de ensino e aprendizagem, uma vez que a participação em reuniões faz parte do conteúdo teórico-prático da disciplina da Graduação em Enfermagem da UFPR que enfoca saúde mental.
O objetivo proposto para este estudo foi descrever a contribuição da Extensão Universitária em saúde mental desenvolvida na Universidade Federal do Paraná para a formação do enfermeiro.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo exploratório-descritiva, desenvolvida na cidade de Curitiba, Estado do Paraná.
Participaram 16 enfermeiros, os quais atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ser egresso do Curso de Graduação de Enfermagem da UFPR; ter participado de pelo menos uma reunião do Projeto de Extensão durante a disciplina "Assistência de Enfermagem II - Enfoque de Saúde Mental", ofertada no sétimo período do curso.
Os dados foram coletados no período de agosto a novembro de 2010 por meio da técnica de entrevista semiestruturada e gravados em fita magnética, com duração em média de sessenta minutos.
O primeiro entrevistado foi um enfermeiro, aluno do Mestrado em Enfermagem da UFPR e que participava das reuniões do Projeto de Extensão a fim de coletar dados para sua dissertação. Para seleção dos demais participantes, utilizou-se a estratégia bola de neve (6). Assim, cada sujeito indicava alguém que preenchia os critérios de inclusão. Esse processo se repetiu até que ocorresse a saturação dos dados. Primeiramente, foi feito contato informal a fim de verificar a disponibilidade do sujeito para participar da pesquisa; posteriormente, as entrevistas foram marcadas em locais, datas e horários escolhidos pelos sujeitos.
A análise de dados foi realizada com base na proposta de categorias temáticas (7), que consiste em ordenação, classificação e análise final dos dados. Na primeira fase, as entrevistas foram transcritas e organizadas, o que possibilitou uma visão geral do que foi dito pelos sujeitos. Na segunda fase, fez-se a leitura exaustiva e repetida das informações. Os dados foram organizados por temas para que pudessem emergir as categorias. Por fim, as categorias foram discutidas e fundamentadas com literaturas sobre a temática.
Este artigo faz parte de uma pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde (UFPR), sob a inscrição CAAE 0063.0.091.000-09. Respeitaram-se os aspectos éticos conforme a Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Todos os sujeitos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Respeitou-se, entre outros, o anonimato dos pesquisados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os 16 enfermeiros informantes do estudo eram em sua maioria do sexo feminino (14), tinham entre 24 e 30 anos e um a três anos de formados. Em relação à atuação, nove eram bolsistas de pesquisa (incluindo os mestrandos), quatro atuavam na prática assistencial, um na docência, outro era residente de enfermagem e o último não atuava. No Quadro 1, são apresentadas as características dos sujeitos.
Os dados obtidos das entrevistas deram origem a quatro categorias temáticas: Cuidado em saúde mental fora do ambiente hospitalar; Interação e comunicação como estratégias de cuidado de enfermagem; Mudança no modo de perceber e compreender a pessoa com transtorno mental; Contribuição na formação profissional e pessoal do enfermeiro. As referidas categorias serão descritas a seguir.
Cuidado em saúde mental fora do ambiente hospitalar
A vivência proporcionada pelo Projeto de Extensão, quando eram alunos da graduação, contribuiu na construção de seu conhecimento de enfermagem em saúde mental e possibilitou antever possibilidades de oferta de cuidados de saúde mental e tratamento extra-hospitalar. Para os participantes, foi importante ver e ouvir a pessoa com transtorno mental e perceber que ela pode conviver em sociedade e falar de si em um local que não seja o hospital psiquiátrico.
Eu já tinha passado pelo hospital psiquiátrico e sempre ficava me perguntando o que estes pacientes faziam quando saíam de lá [...]. Então, me mostrou como dar continuidade ao tratamento fora do hospital, sua adaptação de novo na sociedade. (S1)
[...] pude ver pessoas conversando umas com as outras, ver que os pacientes podem tomar medicamento e fazer o tratamento fora de uma instituição hospitalar, estar junto do convívio da sociedade, podem trabalhar. (S2)
[...] a gente vê no hospital os pacientes crônicos e até os agudos, [...] quando a gente vai para o Projeto, vai esperando alguma coisa parecida com o hospital e a gente tem o choque dessa diferença [...]. Vi que a desospitalização pode ser concreta, palpável e efetiva [...] há a necessidade de hospital, mas pode sim trazer essas pessoas para a sociedade. (S14)
A área de saúde é regida pelo modelo biomédico representado fortemente na figura do hospital como principal recurso terapêutico do mundo moderno. O modelo hospitalocêntrico e manicomial para tratamento da doença mental ainda está arraigado na concepção da sociedade, o que faz com que grande parte da população não reconheça a importância de uma rede de atenção à saúde mental extra-hospitalar (8). Desse modo, o Projeto de Extensão é um instrumento para o processo de desconstrução e reconstrução de conceitos formulados pelos estudantes até os primeiros contatos com as pessoas com transtornos mentais e seus familiares.
Assim, o referido pelos sujeitos é um estímulo à manutenção do tratamento fora do ambiente hospitalar, no qual a pessoa com transtorno mental e seus familiares podem compartilhar experiências, vivências e se socializar com os demais participantes, o que é corroborado por uma das premissas da Reforma Psiquiátrica. Destarte, a compreensão do transtorno mental e do tratamento dispensado deve envolver os familiares e a sociedade na busca de parcerias para um cuidado à saúde o mais próximo possível do meio de convívio da pessoa com transtorno mental (9).
Os participantes destacaram a variedade de temas abordados nas reuniões e o interesse por parte das pessoas com transtorno mental e de seus familiares em conhecer seus direitos e como legitimá-los. Desse modo, oportuniza-se, entre outros aspectos, conhecer esses direitos e participar ativamente das discussões, trocando experiências, debatendo e dirimindo as dúvidas. Para o estudante, o Projeto de Extensão permitiu adquirir conhecimento científico e reconhecer que é possível a participação ativa dos usuários.
Conheci um local em que eles buscam conhecer seus direitos, entender sobre a doença e também da legislação. Até participar desta reunião, eu ainda não sabia o que era Reforma Psiquiátrica e lá um dia foi discutido isso. (S2)
Percebi que eles são muito interessados, porque, no meu entendimento, quem vai a um grupo desses é porque se preocupa muito consigo ou com o seu familiar, porque vai a um ambiente em que se discute a doença, expõe as dificuldades que estão passando, debatem este tema. Isso é uma forma de crescimento deles, e acho bem importante (S4).
Entendi que, para eles, não é só ir à reunião do Projeto e falar qualquer coisa, eles trocam experiências, falam das dúvidas, sobre os temas [...] fazem discussão aberta, cada um fala. Percebi que alguns estavam em estado bem cronificado da doença e não conversavam muito, eram mais os familiares que interagiam, [...] era uma roda de discussão mesmo. (S5)
Nesse aspecto, a extensão universitária exerce papel fundamental de estabelecer a relação da universidade com a sociedade, permitindo uma interação positiva por meio do acolhimento, além de servir como um espaço diferenciado às novas experiências voltadas à humanização do cuidado, promovendo a qualificação da atenção à saúde (1).
A área da saúde mental está nos dias atuais em processo de transformações em busca de diminuir 'pré-conceitos' ou conceitos equivocados em relação às pessoas com transtornos mentais. Assim, o ensino de enfermagem em saúde mental também deve ocorrer de maneira diferenciada, com vistas a desconstruir o estigma que vem acompanhando por anos a história do tratamento à pessoa com transtorno mental e a relação que a sociedade estabelece com ela. Para tanto, é imprescindível que o processo pedagógico contemple os diversos ambientes de aprendizagem, não se restringindo, portanto, à sala de aula (9).
Atualmente, no Brasil, existem vários serviços extra-hospitalares que integram o Programa de Saúde Mental, como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Hospital Dia (HD), Ambulatório, Unidades em Hospital Geral, Clínicas de Reabilitação, Hospital Psiquiátrico de Internação Integral, Residências Terapêuticas. Esses serviços podem aumentar sua efetividade de assistência e cuidado às pessoas com transtorno mental com o apoio de associações, grupos de ajuda mútua, iniciativas de grupos sociais de associações de bairros e comunidades religiosas, as quais representam a rede de apoio social na saúde mental e outras possibilidades que se somam na procura de melhor qualidade de vida para essas pessoas (10-11).
O Projeto de Extensão, conforme mencionado por S4 é um ambiente propício para que o paciente se posicione como indivíduo interessado que busca conhecer as circunstâncias inerentes à sua condição e discuta as situações relacionadas a ele. Os relatos dos sujeitos mostraram a importância que tiveram para eles a mudança de paradigma e a ampliação de conhecimento específico dessa área, visto que relataram terem adquirido informações para melhor compreender as pessoas com transtorno mental.
Interação e comunicação como estratégias de cuidado de enfermagem
Os participantes perceberam que a prática profissional do enfermeiro em saúde mental exige paciência, flexibilidade, observação, conhecimento, comunicação, organização, mediação, empatia, habilidades específicas para interagir com esse público. Tais atribuições foram consideradas uma forma de cuidado de enfermagem.
[...] existe interação, todo tempo eles interagem, falam sobre o que pensam se estão ansiosos [...] e, além disso, também é momento para o profissional observar se o paciente está ficando mais agitado, mais ansioso, o modo de ele andar [...] conforme você está conversando com ele, que ele vem até você, você consegue perceber sinais de alteração do quadro (S2).
A enfermagem em saúde mental pode desenvolver vários papéis na prevenção, na atuação direta na assistência [...] eu acho que, para tudo, deve haver uma interação direta com o paciente [...]. A partir do momento em que o enfermeiro está ali no projeto, estimulando o acolhimento das pessoas com transtorno mental, é uma prática positiva para enfermagem e é fundamental alguém da enfermagem para que a gente possa também se destacar, não só puncionando uma veia, fazendo um curativo, mas também fazendo o curativo da alma [...] através da conversa. (S3)
Os participantes levantaram a especificidade da prática em saúde mental relacionada às ações do enfermeiro, porquanto, para eles, esse profissional deve estar alicerçado em habilidades que favoreçam a interação com esse público. Nessa perspectiva, cabe ao profissional buscar desenvolver habilidades, considerando que, para realizar as ações de enfermagem em grupo, é necessário ter capacidade para comunicar-se, exercitar a escuta, ter respeito às diferenças e flexibilidade relacionada às mudanças (11-15).
Os participantes referiram que a vivência no Projeto de Extensão os conduziu a uma visão reflexiva e diferenciada a respeito das formas de tratamento e como eles, como profissionais, podem desenvolver o cuidado à pessoa com transtorno mental. A respeito disso, S3 referiu que as intervenções em saúde mental não devem se limitar a procedimentos como os que envolvem o tratamento medicamentoso, mas que se possam desenvolver cuidados de enfermagem que abranjam as dimensões sociais e psicológicas do paciente e seus familiares. Além disso, acrescentou que a compreensão do trabalho com grupos é extremamente relevante para sua formação e atuação profissional.
Mudança no modo de perceber e compreender a pessoa com transtorno mental
Os participantes relataram sobre o sofrimento que o preconceito impõe às pessoas com transtorno mental, em contrapartida, perceberam no Projeto de Extensão um local em que essas pessoas se sentem efetivamente acolhidas. Alguns sujeitos mencionaram que, antes de participarem desse projeto, tinham medo e receio, e que, neste sentido, o projeto os ajudou a mudar o conceito sobre a pessoa com transtorno mental e a diminuir o preconceito e os estigmas que traziam consigo:
Foi a primeira vez que tive contato com uma pessoa que eu sabia ter transtorno mental, foi interessante, eu não tinha iniciado as aulas práticas ainda e tinha receio, medo [...] porque, até então, a concepção que eu tinha de uma pessoa com transtorno mental, que chamam de louca, era de uma pessoa que ficava perambulando pela rua, que não conseguia conviver com a família e com as outras pessoas. [...] era essa a concepção, o estigma que eu tinha de uma pessoa da qual eu não ia conseguir ficar muito próxima, ter um contato, interagir com ela, conversar. (S2)
Ver que, na reunião, as pessoas com transtorno mental riam, conversavam, eram tratados de igual para igual, sem hierarquias [...] foi marcante na minha vida para eu deixar de estigmatizar essas pessoas. (S3)
A experiência possibilitou aos participantes perceber a pessoa com transtorno mental como ser humano que tem necessidades de realizar diversas atividades do cotidiano e como ela vivencia no dia a dia as suas manifestações clínicas. Referiram que adquiriram conhecimento sobre as características de alguns transtornos mentais.
[...] pude ver que a pessoa com transtorno mental é um ser humano como todos nós, que pode ir para faculdade, dirigir. Também pude ver que é um espaço que possibilita tanto a eles quanto aos alunos conhecer sobre a doença [...], me ajudou a ver que os pacientes podem, sim, conviver com os outros. (S2)
Foi interessante para conversar, para saber o que eles fazem, como são realmente as patologias e o cotidiano destas pessoas. (S4)
Com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei 9394/96(4), os projetos pedagógicos dos cursos de enfermagem possibilitaram ao currículo maior flexibilidade, ancorando propostas e experiências criativas e inovadoras. Nessa perspectiva, o Projeto de Extensão em saúde mental contribui neste cenário de experiências criativas na formação do estudante ao possibilitar que ele desenvolva sua prática junto a membros da sociedade, propiciando mudança na forma de pensar e agir (1-2,9).
O preconceito e o estigma em relação à pessoa com transtorno mental ainda estão radicados na sociedade. Pelos relatos dos participantes, foi possível apreender que a visão estereotipada em relação a esses pacientes permanecia arraigada. Um estudo com estudantes de enfermagem do Brasil, Peru e Chile demonstrou que os participantes tendem a carregar consigo estereótipos e preconceitos em relação à pessoa que sofre mentalmente e que tais características podem ser comparadas aos preconceitos da população em geral, que utiliza o senso comum quando descreve a pessoa com transtorno mental como um indivíduo agressivo, estranho, perigoso, que não apresenta melhora e ainda acarreta problemas para sua família (16).
Contribuição na formação profissional e pessoal do enfermeiro
Os sujeitos referiram que a participação no Projeto de Extensão lhes ensejou aprendizagem profissional e pessoal e oportunidade de conhecer outro ambiente com diferentes formas de cuidar em saúde mental.
[...] foi importante para expandir minha visão, ver um trabalho de inserção social, de possibilidades de tratamentos [...] acrescentou bastante na minha formação. (S1)
O ambiente do projeto possibilitou saber como é outro ambiente para trabalhar com as pessoas, como se portar [...], por exemplo, se eu trabalhar futuramente em um serviço que não seja hospitalar, já tenho essa noção, esse aprendizado. Foi importante, porque foi outro ambiente que vem bem ao encontro da nova concepção [...]. Então, foi um início para me despertar uma vontade de estar nessa área. (S2)
[...] aconteceu uma aprendizagem pessoal e profissional para que eu - como profissional - me volte também para outras intervenções sociais, psicológicas da pessoa com transtorno mental [...]. O projeto realmente contribui para mostrar que, na prática, é efetivo esse tipo de cuidado, que faz bem para o paciente e faz bem para o profissional. (S3)
Alguns participantes referiram que foi uma oportunidade de ficar frente à realidade vivenciada por essas pessoas, pois tiveram a possibilidade de relacionar a teoria com a prática por meio dos relatos e depoimentos dos pacientes e familiares. Externaram que o Projeto é um espaço de ensino-aprendizagem que provocou mudanças no modo de perceber a pessoa com transtorno mental e foi uma experiência com reflexos em sua vida pessoal e profissional.
[...] me sensibilizou para essa situação. Saber que existem instituições, que dão esse apoio ao paciente, saber orientar, isso é uma visão diferenciada [...]. A saúde mental não está só nos hospitais psiquiátricos, está em todos os hospitais, dentro da nossa casa [...] a saúde mental está em todos os ambientes de trabalho. (S4)
Você se imagina naquela situação, tudo isso faz correlação para desempenhar teu trabalho, a partir de agora, com a vivência que teve [...]. Além de aprender, a gente evolui como ser humano [...], porque temos uma perspectiva muito diferente de tudo [...]. Trabalhar com transtorno mental é muito diferente [...] eles são uma parte muito excluída da sociedade [...] entrar nesse mundo e tentar compreender o outro, acho que te melhora como ser humano também [...] eu acho que a evolução não é só profissional é pessoal também. (S8)
Vale destacar que as estratégias de ensino-aprendizagem utilizadas no ensino de saúde mental devem almejar o desenvolvimento de competências nos estudantes para que, no futuro, eles sejam enfermeiros com compreensão e conhecimento para atuar na área de enfermagem psiquiátrica e saúde mental e/ou outras áreas de forma satisfatória. Para tanto, é necessário mobilizar conhecimentos e habilidades relacionados à cidadania e à inclusão social das pessoas com transtorno mental (15).
Nas falas dos participantes se percebe a referência ao Projeto de Extensão como um espaço que favorece uma ação transformadora para todos aqueles que dele participam, mas, sobretudo, para o estudante da graduação que encontra realidade que o faz rever conceitos e conceber a pessoa com transtorno mental na perspectiva da socialização. Assim, uma prática transformadora é estabelecida na relação conjunta, no pensar e no agir dos indivíduos, possibilitando um processo emancipatório aos atores sociais e, neste caso, os estudantes se mostraram capazes de refletir acerca da realidade da pessoa com transtorno mental (2,9).
A estratégia da EU é uma maneira, um espaço em que o estudante de enfermagem pode atuar como coadjuvante da rede de apoio social na atenção à saúde mental, mostrando que a universidade pode e tem o papel de participar e criar propostas de vinculação com a sociedade (1-2). Assim, o enfermeiro, comprometido com sua prática, necessita se apropriar de conhecimentos específicos, considerando as mudanças ocorridas no paradigma de assistência e cuidado em saúde mental. Portanto, precisa estar atento às interferências que dificultam a humanização na prática desse cuidado (9-12,14).
Alguns dos participantes referiram que é necessário o profissional ter perfil e ser engajado. Assim, espera-se que o futuro enfermeiro estabeleça novas relações com o contexto social, reconhecendo a estrutura e as formas de organização; perceba que suas transformações e expressões promovam estilos de vida saudáveis, conciliando as necessidades dos pacientes com as da sua comunidade; se esforce para atuar como agente de transformação social e que desenvolva cuidados de enfermagem compatíveis com os diferentes grupos da comunidade (9,13).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio desta pesquisa, foi possível observar que as mudanças promovidas pelo Movimento da Reforma Psiquiátrica estabelecem relações com a construção do conhecimento de enfermagem em saúde mental, considerando o âmbito universitário como o lócus em que esse conhecimento é desenvolvido.
Tem-se na EU um espaço de construção do saber em que a prática social é presente por meio das ações desenvolvidas. Ela concede à comunidade acadêmica processo de troca entre os atores sociais, neste caso, os pacientes com transtorno mental e seus familiares, membros da comunidade, estudantes de graduação em enfermagem e de outros cursos e os docentes universitários.
O Projeto de Extensão "O cuidado à saúde de familiares e portadores de sofrimento mental" oportuniza aos estudantes de enfermagem estar frente à realidade vivenciada pelos indivíduos, um dos motivos da existência deste projeto. Assim, acredita-se ser fundamental para o estudante ter a oportunidade, durante sua trajetória acadêmica, de conhecer as pessoas com transtornos mentais em seus diferentes cenários de convívio social, visto que o conhecimento adquirido por meio de outras fontes contribui na sua formação e atuação profissional. Nesse sentido, a extensão universitária possibilita a construção do conhecimento em diferentes espaços da comunidade.
Os resultados alcançados foram ao encontro do objetivo da pesquisa, apontados pela vivência do estudante e pelo acréscimo à sua formação, confirmando a importância deste projeto como coadjuvante na construção do saber em saúde mental. Assim, entende-se o Projeto de Extensão como espaço que possibilita acolhimento e apoio aos pacientes e familiares por meio de ações de cuidado de enfermagem e local onde há oportunidade de mudar conceitos e romper com os paradigmas que os estudantes trazem consigo.
Espera-se que esta pesquisa promova outros processos reflexivos em direção a essas propostas e que as instituições de ensino mantenham o seu compromisso social em formar cidadãos comprometidos, conscientes do seu papel e fundamentados no que se propõem realizar.
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Endereço para correspondência:
Mariluci Alves Maftum
Rua João Clemente Tesseroli, 90. Bairro Jardim das Américas
CEP: 81.520-190.Curitiba, PR, Brasil
E-mail: maftum@ufpr.br
Data de recebimento: 13/12/2012
Data de aprovação: 28/08/2013










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